O cigarro voltou a crescer no Brasil?
Durante muitos anos, o Brasil foi considerado um exemplo mundial no combate ao tabagismo. Restrições à propaganda, ambientes livres de fumaça, advertências nas embalagens, aumento da conscientização e políticas públicas fizeram o número de fumantes cair de forma importante ao longo das últimas décadas. Mas um dado divulgado recentemente pelo Ministério da Saúde acendeu um sinal de alerta: depois de quase 20 anos de queda, o percentual de adultos fumantes no Brasil voltou a crescer. Segundo dados do Vigitel, a proporção de adultos que fumavam passou de 9,2% em 2023 para 11,7% em 2024. Para comparação, em 2006, no início da série histórica, o percentual era de 15,7%.
Gabriel Bocalini
9/1/20265 min read
Por que esse aumento chama tanta atenção?
A trajetória brasileira vinha sendo marcada por uma redução importante do tabagismo.
Por isso, quando o percentual de fumantes passa de 9,2% para 11,7% em apenas um ano, o dado merece atenção.
Ainda precisamos acompanhar os próximos levantamentos para saber se estamos diante de uma oscilação pontual ou do início de uma mudança sustentada na tendência.
Mas existe outro fenômeno acontecendo paralelamente que merece ser discutido: a forma de consumir nicotina mudou.
Hoje não existe apenas o cigarro tradicional.
Vape, pod e cigarro eletrônico entraram nessa história
Os dispositivos eletrônicos para fumar passaram a fazer parte principalmente do cotidiano dos mais jovens.
E os números ajudam a entender a preocupação.
Entre jovens de 18 a 24 anos, a frequência de uso de dispositivos eletrônicos para fumar passou de 7,4% em 2019 para 10,1% em 2024, atingindo o maior percentual da série histórica para essa faixa etária.
Isso significa que o vape é o responsável pelo aumento recente do cigarro tradicional?
Não podemos afirmar isso.
Os dados mostram dois fenômenos preocupantes acontecendo no país, mas não demonstram que um tenha necessariamente causado o outro.
O que podemos afirmar é que os cigarros eletrônicos criaram uma nova forma de exposição à nicotina, especialmente entre pessoas jovens.
E isso representa um novo desafio para o controle do tabagismo.
“Mas vape não é apenas vapor?”
Não.
Esse talvez seja um dos maiores equívocos relacionados aos cigarros eletrônicos.
O que sai desses dispositivos é um aerossol, e não simplesmente vapor de água.
Dependendo do dispositivo e da substância utilizada, esse aerossol pode conter nicotina e diferentes compostos potencialmente prejudiciais ao organismo.
Existe ainda um ponto fundamental:
a nicotina causa dependência.
Ela atua no sistema de recompensa do cérebro e pode fazer com que um comportamento inicialmente ocasional se transforme progressivamente em necessidade.
Por isso, aquela ideia de:
“Eu só uso vape quando saio.”
pode não permanecer assim para sempre.
Por que a nicotina causa tanta dependência?
Quando a nicotina chega ao cérebro, ela estimula circuitos relacionados à sensação de recompensa e prazer.
Com exposições repetidas, o organismo passa a se adaptar à presença da substância.
Quando a pessoa tenta parar, podem aparecer sintomas como ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do sono, aumento do apetite e, principalmente, uma forte vontade de fumar — a chamada fissura.
Por isso, tabagismo não deve ser tratado simplesmente como falta de força de vontade.
Dependência de nicotina é uma condição médica e pode precisar de tratamento.
O que o cigarro faz com os pulmões?
Quando pensamos nos danos provocados pelo cigarro, o câncer de pulmão costuma ser a primeira doença lembrada.
Mas os efeitos começam muito antes.
A fumaça do cigarro entra em contato diretamente com as vias respiratórias e provoca uma exposição repetida a milhares de substâncias.
Ao longo do tempo, isso pode gerar inflamação dos brônquios, prejudicar os mecanismos naturais de limpeza das vias respiratórias e contribuir para alterações estruturais progressivas do pulmão.
O tabagismo está relacionado a diversas doenças, entre elas:
DPOC, incluindo enfisema pulmonar e bronquite crônica;
câncer de pulmão;
pior controle da asma;
maior risco de doenças cardiovasculares;
outros tipos de câncer;
diferentes doenças respiratórias.
Segundo o Ministério da Saúde, o tabagismo está associado a mais de 50 doenças e o cigarro responde por cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão no Brasil.
E existe algo importante:
o pulmão pode estar sofrendo mesmo antes de aparecer falta de ar.
“Mas eu não sinto nada.”
Esse é justamente um dos problemas.
Algumas doenças relacionadas ao tabagismo podem evoluir durante anos antes que os sintomas se tornem suficientemente intensos para modificar a rotina.
Nosso organismo possui uma reserva respiratória considerável.
Isso significa que uma pessoa pode fumar, trabalhar, caminhar e realizar suas atividades normalmente e ainda assim já apresentar alterações pulmonares.
Quando aparecem tosse persistente, catarro frequente, chiado ou falta de ar aos esforços, o ideal é não considerar esses sintomas simplesmente como:
“É normal porque eu fumo.”
Tosse crônica não deve ser normalizada apenas porque alguém é fumante.
“Eu faço exercício. Isso compensa o cigarro?”
Não.
Inclusive, a campanha do Dia Nacional de Combate ao Fumo de 2026, promovida pelo INCA, trouxe justamente a mensagem:
“Treinar não combina com fumar.”
A atividade física traz inúmeros benefícios para o coração, músculos, metabolismo e sistema respiratório.
Mas ela não consegue neutralizar os efeitos provocados pelo cigarro.
Você pode ter uma alimentação saudável, praticar exercícios regularmente e manter um bom condicionamento físico.
Tudo isso é excelente.
Mas não transforma o cigarro em algo seguro.
“Mas eu fumo pouco.”
Outra ideia bastante comum é acreditar que fumar poucos cigarros elimina o problema.
Reduzir o consumo pode diminuir a exposição a algumas substâncias, mas não existe uma quantidade de cigarro considerada completamente segura.
Por isso, quando o objetivo é reduzir os riscos relacionados ao tabagismo, a meta ideal continua sendo a cessação completa.
E é justamente aqui que precisamos mudar a maneira como enxergamos quem fuma.
Parar de fumar não é apenas uma questão de força de vontade
Algumas pessoas conseguem abandonar o cigarro sozinhas.
Outras tentam diversas vezes.
Isso não significa falta de determinação.
O grau de dependência de nicotina varia muito entre as pessoas.
Por isso, o tratamento pode envolver acompanhamento médico, estratégias comportamentais e, quando indicado, medicamentos.
Entre as opções utilizadas estão formas de reposição de nicotina, como adesivos e gomas, além de medicamentos específicos utilizados conforme o perfil do paciente.
No SUS, por exemplo, o tratamento pode incluir acompanhamento individual ou em grupo, orientação e, quando indicado, adesivos ou gomas de nicotina e bupropiona.
E a procura por ajuda aumentou bastante.
Em 2025, cerca de 2,1 milhões de pessoas buscaram atendimento relacionado à cessação do tabagismo nas Unidades Básicas de Saúde. Em 2022, eram aproximadamente 1 milhão.
Esse é um dado que merece ser valorizado.
“Depois de tantos anos fumando, ainda vale a pena parar?”
Sim. Sempre.
Essa é provavelmente uma das mensagens mais importantes deste artigo.
Existe uma ideia equivocada de que, depois de décadas fumando, o dano já aconteceu e não existe mais benefício em abandonar o cigarro.
Não é assim.
O organismo começa a se beneficiar da interrupção da exposição ao tabaco e, ao longo do tempo, diversos riscos relacionados ao cigarro diminuem.
Mesmo alguém que fumou durante muitos anos pode obter benefícios importantes ao parar.
Por isso, uma frase que não deveria impedir ninguém de tentar é:
“Agora já é tarde demais.”
Na maioria das vezes, não é.
Então o cigarro realmente está voltando?
Os dados mais recentes justificam um alerta, mas é importante interpretá-los corretamente.
O Brasil conseguiu uma redução impressionante do tabagismo ao longo das últimas décadas.
Em 2006, 15,7% dos adultos fumavam. Em 2023, esse número havia chegado a 9,2%.
Em 2024, porém, voltou para 11,7%.
Precisaremos observar os próximos anos para saber se estamos diante de uma verdadeira reversão da tendência.
Ao mesmo tempo, existe outro sinal importante: entre os jovens de 18 a 24 anos, o uso de dispositivos eletrônicos para fumar chegou a 10,1% em 2024.
Ou seja:
o cigarro tradicional não desapareceu e novas formas de consumir nicotina surgiram.
Isso torna a prevenção ainda mais importante.
Fonte principal: Ministério da Saúde — Dia Nacional de Combate ao Fumo: Ministério da Saúde convida população a compartilhar experiências sobre o tabagismo, publicada em 28 de agosto de 2026
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