O pulmão sente dor? Então por que sentimos dor no peito?

Quando sentimos uma pontada no peito ao respirar, é comum pensar imediatamente: “estou com dor no pulmão”. Curiosamente, porém, o tecido pulmonar propriamente dito possui pouca sensibilidade à dor. Isso significa que podemos ter dor relacionada a uma doença pulmonar, mas geralmente quem está produzindo essa sensação não é o pulmão em si. A dor costuma vir das estruturas ao redor dele, principalmente da pleura, parede torácica, músculos, costelas e nervos. Entender essa diferença ajuda a explicar por que algumas doenças pulmonares provocam muita dor enquanto outras, mesmo importantes, podem evoluir praticamente sem nenhum desconforto doloroso.

Gabriel Bocalini

8/18/20264 min read

O pulmão propriamente dito praticamente não dói

O interior do pulmão, chamado de parênquima pulmonar, é formado principalmente pelos alvéolos, pequenos vasos sanguíneos e estruturas responsáveis pelas trocas gasosas.

Essa região não possui a mesma quantidade de terminações nervosas responsáveis pela percepção da dor que encontramos na pele, nos músculos ou na parede do tórax.

Por isso, uma pequena alteração localizada profundamente no pulmão pode não provocar nenhuma dor. Isso ajuda a entender, por exemplo, por que alguns nódulos pulmonares são encontrados por acaso em uma tomografia realizada por outro motivo.

Da mesma maneira, algumas doenças podem crescer ou evoluir silenciosamente durante algum tempo antes de produzirem sintomas.

Então de onde vem a chamada “dor no pulmão”?

Os pulmões ficam envolvidos por uma membrana muito fina chamada pleura.

Na verdade, existem duas camadas. A pleura visceral fica diretamente aderida à superfície do pulmão e apresenta baixa sensibilidade à dor. Já a pleura parietal, que reveste internamente a parede do tórax e partes do diafragma e mediastino, possui rica inervação sensitiva.

Quando essa região é inflamada ou irritada, pode surgir a clássica dor pleurítica.

É aquela dor geralmente descrita como uma pontada aguda que piora quando a pessoa inspira profundamente, tosse ou espirra.

É por isso que algumas doenças pulmonares provocam dor principalmente quando atingem regiões próximas à pleura.

Por que respirar fundo pode piorar a dor?

Durante a inspiração, os pulmões se expandem e as duas superfícies pleurais deslizam uma sobre a outra.

Normalmente esse movimento ocorre praticamente sem atrito.

Quando existe inflamação da pleura, esse movimento pode estimular as terminações nervosas da pleura parietal. Quanto maior a inspiração, maior pode ser o desconforto.

Por isso, alguns pacientes instintivamente começam a respirar de maneira mais curta e superficial para evitar a dor.

Essa característica é uma informação importante durante a consulta médica: dor que piora nitidamente com a respiração sugere envolvimento pleural ou da própria parede torácica, embora existam diferentes causas possíveis.

Pneumonia pode causar dor?

Pode, mas nem toda pneumonia causa dor.

Quando uma pneumonia está localizada profundamente no pulmão, sem envolvimento pleural, o paciente pode apresentar febre, tosse, catarro e falta de ar sem sentir dor significativa.

Quando a inflamação alcança a pleura, entretanto, pode aparecer uma dor intensa em pontada, principalmente durante inspirações profundas.

Isso explica por que duas pessoas com pneumonia podem apresentar sintomas completamente diferentes.

E o tromboembolismo pulmonar?

O tromboembolismo pulmonar (TEP) acontece quando um coágulo, geralmente originado nas veias das pernas, chega à circulação pulmonar e obstrui uma artéria.

Alguns pacientes apresentam apenas falta de ar ou aceleração dos batimentos cardíacos. Outros desenvolvem uma dor pleurítica bastante característica.

Quando a obstrução compromete pequenos vasos próximos à periferia pulmonar, pode ocorrer irritação da pleura e, eventualmente, infarto pulmonar, provocando dor que piora ao respirar.

Por isso, dor torácica súbita associada a falta de ar, especialmente em pessoas com fatores de risco para trombose, merece avaliação médica imediata.

Pneumotórax também pode provocar dor súbita

O pneumotórax acontece quando o ar entra no espaço existente entre o pulmão e a parede torácica, podendo provocar colapso parcial ou completo do pulmão.

Um dos sintomas clássicos é uma dor torácica súbita, geralmente de um lado, acompanhada de falta de ar.

Mais uma vez, grande parte da dor está relacionada à irritação das estruturas pleurais e da parede torácica, e não ao tecido pulmonar propriamente dito.

Muitas vezes a dor vem da parede do tórax

Uma parcela importante das dores no peito não tem origem nos pulmões.

Entre as causas estão contraturas musculares, exercícios físicos, traumas, inflamação das articulações entre as costelas e o esterno e irritação dos nervos intercostais.

Uma característica que pode sugerir origem musculoesquelética é a dor que piora com determinados movimentos ou pode ser reproduzida ao pressionar uma região específica do tórax.

Mesmo assim, essa característica isoladamente não deve ser utilizada para descartar outras causas quando existem sinais de alerta.

Nem toda dor no peito é pulmonar

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Dentro do tórax existem pulmões, coração, grandes vasos sanguíneos, esôfago, músculos, nervos, costelas e outras estruturas. Todas elas podem produzir sintomas percebidos como “dor no peito”.

A dor relacionada ao coração, por exemplo, costuma ser descrita como pressão, peso, aperto ou queimação, podendo irradiar para braço, mandíbula, costas ou região superior do abdome. Entretanto, nem sempre apresenta características típicas.

Refluxo gastroesofágico, alterações musculares, ansiedade e outras condições também podem provocar sintomas semelhantes.

Por isso, não é seguro determinar a origem da dor apenas pela maneira como ela é sentida.

Então como o médico descobre a origem da dor?

A investigação começa pela história clínica.

Características como localização, duração, intensidade, relação com respiração, esforço físico, alimentação e movimentos ajudam bastante a direcionar o diagnóstico.

Também são considerados idade, tabagismo, doenças cardiovasculares, histórico de trombose, cirurgias recentes, imobilização, infecções e outros fatores de risco.

Dependendo da situação, podem ser necessários eletrocardiograma, radiografia de tórax, tomografia, exames laboratoriais, ecocardiograma ou angiotomografia pulmonar.

Não existe um único exame capaz de avaliar todas as causas de dor torácica.

Quando a dor no peito deve ser avaliada rapidamente?

Algumas situações merecem atenção especial. Dor torácica súbita, intensa ou diferente do habitual, principalmente quando acompanhada de falta de ar importante, suor frio, desmaio, palpitações, queda da saturação, tosse com sangue ou irradiação para braço, mandíbula ou costas, deve ser avaliada imediatamente.

Nesses casos, é necessário excluir rapidamente condições potencialmente graves, como infarto do miocárdio, tromboembolismo pulmonar, pneumotórax e doenças da aorta, entre outras.

Principal mensagem

Quando alguém diz que está sentindo “dor no pulmão”, a sensação é absolutamente real — mas, anatomicamente, a origem da dor muitas vezes está em outra estrutura.

O tecido pulmonar propriamente dito possui pouca sensibilidade dolorosa. A pleura parietal e a parede torácica, por outro lado, são muito mais sensíveis e explicam grande parte das dores relacionadas às doenças respiratórias.

É por isso que uma pequena inflamação próxima à pleura pode causar uma dor intensa, enquanto determinadas alterações localizadas profundamente no pulmão podem permanecer silenciosas.

Nosso corpo nem sempre indica exatamente qual órgão está causando um sintoma. Por isso, diante de uma dor torácica nova, persistente ou acompanhada de outros sinais de alerta, a avaliação clínica é fundamental para descobrir sua verdadeira origem.