Por que algumas pessoas sentem mais falta de ar quando deitam?

Você se deita para dormir e percebe que está respirando pior. Coloca um travesseiro a mais e melhora. Em algumas pessoas, chega a ser necessário dormir quase sentado para conseguir respirar confortavelmente. Essa situação pode acontecer por diferentes motivos. Quando nos deitamos, a posição do diafragma muda, o sangue se redistribui pelo corpo e os pulmões passam a trabalhar em condições um pouco diferentes das que existem quando estamos sentados ou em pé. Na maioria das pessoas saudáveis, essas mudanças passam despercebidas. Mas, quando existe alguma alteração pulmonar, cardíaca ou mesmo excesso de peso, deitar pode tornar uma dificuldade respiratória muito mais evidente.

Gabriel Bocalini

8/5/20264 min read

O que muda na nossa respiração quando deitamos?

O diafragma é o principal músculo responsável pela respiração e fica logo abaixo dos pulmões, separando o tórax do abdome.

Quando estamos em pé, a gravidade ajuda a manter parte do conteúdo abdominal em uma posição mais baixa. Ao deitarmos, essa relação muda e o conteúdo do abdome exerce maior influência sobre a posição do diafragma.

Como consequência, o volume de ar que permanece nos pulmões ao final de uma expiração normal diminui um pouco.

Para uma pessoa saudável, isso geralmente não representa problema. Mas quem já possui menor reserva respiratória pode perceber a diferença.

O peso também pode influenciar

Pessoas com obesidade podem apresentar maior dificuldade respiratória quando estão deitadas.

Isso acontece porque o peso da parede torácica e o aumento da pressão exercida pelo abdome podem limitar parcialmente o movimento do diafragma e reduzir o espaço disponível para a expansão dos pulmões.

Durante o dia, isso pode ser pouco perceptível. Ao deitar — principalmente de barriga para cima — a mecânica respiratória pode ficar menos favorável.

Além disso, a obesidade está fortemente relacionada a distúrbios respiratórios durante o sono, como a apneia obstrutiva do sono.

Às vezes, a explicação está no coração

Esse é um dos motivos pelos quais os médicos dão tanta importância à pergunta:

“Você precisa usar vários travesseiros para conseguir dormir?”

Quando ficamos deitados, parte do sangue que estava acumulado principalmente nas pernas retorna com maior facilidade para o tórax.

Um coração saudável normalmente consegue lidar com essa mudança sem dificuldades.

Entretanto, quando o coração apresenta dificuldade para bombear o sangue adequadamente, como pode ocorrer na insuficiência cardíaca, esse aumento do volume sanguíneo no tórax pode elevar a pressão nos vasos dos pulmões.

O resultado pode ser uma sensação de falta de ar que aparece ou piora ao deitar e melhora quando a pessoa se senta ou fica em pé.

Na medicina, chamamos esse sintoma de ortopneia.

Doenças pulmonares também podem piorar nessa posição

Nem toda falta de ar ao deitar é causada pelo coração.

Algumas pessoas com doenças pulmonares apresentam menor reserva respiratória e podem perceber mais os efeitos da mudança de posição.

Pacientes com doenças que comprometem o movimento do diafragma, alterações importantes da caixa torácica, doenças neuromusculares e algumas doenças pulmonares podem apresentar piora dos sintomas quando ficam deitados.

Por isso, entender em qual posição a falta de ar aparece ou melhora pode fornecer pistas importantes sobre sua origem.

E se o problema acontecer somente durante o sono?

Existe uma diferença entre sentir falta de ar ao se deitar e respirar mal enquanto dorme.

Na apneia obstrutiva do sono, por exemplo, a passagem de ar pela garganta pode se fechar repetidamente durante o sono.

A pessoa geralmente não percebe cada episódio, mas pode apresentar ronco intenso, pausas respiratórias observadas por outra pessoa, engasgos durante a noite, sono não reparador, dor de cabeça pela manhã e sonolência durante o dia.

Dormir de barriga para cima pode favorecer esses episódios em algumas pessoas.

E quando a pessoa acorda durante a madrugada sem conseguir respirar?

Existe uma situação diferente e particularmente importante: a pessoa consegue adormecer, mas depois de algum tempo acorda subitamente com intensa falta de ar, precisando sentar-se, levantar-se ou abrir uma janela para sentir que consegue respirar novamente.

Esse sintoma recebe o nome de dispneia paroxística noturna.

Embora existam diferentes diagnósticos possíveis, esse padrão pode estar associado à insuficiência cardíaca e merece investigação médica, principalmente quando acompanhado de inchaço nas pernas, cansaço progressivo ou redução da capacidade para realizar atividades habituais.

Dormir com mais travesseiros resolve?

Elevar a cabeceira ou utilizar mais travesseiros pode melhorar temporariamente a respiração porque modifica a posição do diafragma e a distribuição de sangue pelo organismo.

Mas existe uma diferença importante entre melhorar um sintoma e tratar sua causa.

Se uma pessoa que anteriormente dormia normalmente passa a precisar de dois, três ou mais travesseiros para respirar confortavelmente, essa mudança merece atenção.

O número de travesseiros, inclusive, é uma pergunta clássica durante a avaliação médica justamente porque ajuda a entender a intensidade e a evolução do sintoma.

Quando procurar avaliação médica?

Uma falta de ar nova ou progressivamente pior ao deitar deve ser investigada, principalmente quando acompanhada de inchaço nas pernas, ganho rápido de peso, palpitações, dor no peito, tosse persistente, chiado, queda da saturação ou redução importante da capacidade para realizar esforços.

Se a falta de ar for súbita e intensa, estiver associada a dor no peito, desmaio, confusão, lábios arroxeados ou importante queda da saturação, a avaliação deve ser imediata.

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Sentir mais falta de ar quando estamos deitados não é uma doença específica, mas um sintoma que pode fornecer informações importantes sobre o funcionamento do organismo.

A posição deitada modifica a mecânica do diafragma, os volumes pulmonares e a distribuição do sangue. Para a maioria das pessoas isso não causa qualquer problema, mas determinadas doenças cardíacas, pulmonares, alterações do diafragma e a obesidade podem tornar essas mudanças perceptíveis.

Por isso, se você começou a precisar de mais travesseiros, dormir sentado ou acordar durante a noite com falta de ar, não considere isso apenas uma característica do sono.

Às vezes, a posição em que respiramos melhor é uma pista importante sobre o que está acontecendo com nosso coração e nossos pulmões.